Crises, geralmente, são gatilhos de grandes transformações na sociedade, sejam elas sociais, políticas, econômicas ou tecnológicas. E isso explicaria o que está acontecendo no momento e as mudanças que estariam prestes a acontecer. A Teoria Geracional, criada pelos cientistas americanos William Strauss e Neil Howe, defende que a cada 20 ou 25 anos nasce uma nova geração, possuindo diferentes traços de caráter, hábitos e identidade. 

Daniel Araya, PhD e consultor de tecnologia, diz, em artigo publicado na Forbes, “que a atual crise estaria, agora, conduzindo uma transformação global que irá acabar com o mundo como o conhecemos”, culminando no que pode ser entendida como a ‘Quarta Virada’, marcando o fim de uma era. Seguindo essa linha de pensamento, teóricos afirmam que faltaria um marco para fechar o século 20, uma época altamente tecnológica. E esse marco estaria em pleno andamento, neste exato momento, com a atual crise que o mundo vive, segundo aponta a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo (USP) e de Princeton, nos EUA. 

“A ideia que se tinha era a de que uma vez virando o século, tudo mudaria. Mas não funciona assim. A experiência humana é que constrói o tempo. Segundo Eric Hobsbawm (historiador britânico), o longo século 19, por exemplo, só terminou depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Acho que essa crise marca o final do século 20, que foi o século da tecnologia”, diz Lilia, deixando no ar a pergunta: o que nos reserva o próximo século?

Energia renovável impulsiona a Quarta Revolução Industrial

Se o carvão e o vapor alimentaram a Primeira Revolução Industrial, e o petróleo e a telefonia alimentaram a Segunda, podemos dizer que a tecnologia foi a base para a Terceira, e que as energias renováveis ​​e a Inteligência Artificial (IA) estarão impulsionando uma Quarta Revolução Industrial, segundo preveem estudiosos.

“Pela primeira vez na modernidade, vemos o que acontece quando queimamos menos combustíveis fósseis, e isso nos fará pensar”, diz o futurólogo francês Gerd Leonhard, consultor e especialista nos setores de tecnologia e entretenimento. 

Ele prevê que a procura por viagens de avião, turismo e outras indústrias que consomem muitos combustíveis fósseis irá cair e que será necessário uma adaptação desses setores, buscando alternativas na geração de energia limpa para realizar suas atividades. 

“O investimento será redirecionado para energias sustentáveis. Até 2025, a aplicação de capital em combustíveis fósseis não será bem visto no mercado. No geral, esse é um desenvolvimento bom e muito necessário”, afirma Gerd. 

Para ele, a crise trará à tona discussões sobre a auto-suficiência energética do setor da agricultura, por exemplo, e ao aumento da procura por produtos locais e trará um olhar mais atento do consumidor para os processos de produção. 

A visão do futurólogo francês é compartilhada por Marcos Gouvêa, membro do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV) e do Instituto Foodservice Brasil ( IFB), em artigo assinado no site Mercado & Consumo:

“Cresce ainda mais a importância do propósito, não só na teoria, mas o propósito em ação. Empresas e marcas que não têm o aval de sua história e ações estruturais e efetivas nessa direção (responsabilidade social e ambiental), precisam ter muito cuidado para não serem expostas e vistas como oportunistas por consumidores-cidadãos que estão ainda mais sensíveis e atentos com esses aspectos”, alerta.

A construção do caminho para o desenvolvimento sustentável

Investir em combustíveis fósseis já era um negócio em franco declínio antes da crise, enquanto que o inverso acontecia  no investimento em eficiência energética por grandes economias. Em 2015, o estudo Energy Outlook (NEO), feito pela Bloomberg New Energy Finance (BNEF), já apontava que, até 2040, o Brasil deveria atrair US$ 300 bilhões em investimentos para geração de energia elétrica e que a maior parte (70%) irá para projetos solares e eólicos. 

As construções “smart”, também, já vinham em uma crescente, permitindo maior redução de custo no consumo energético e mais atenção para o uso de energia limpa nas operações do dia a dia. O caminho já estava sendo preparado para esta transformação que acabou sendo acelerada pelos últimos acontecimentos que atingiram todo o globo.

“O mundo necessita de energia para funcionar e, há algum tempo, já existe uma preocupação com o desperdício, com o uso energético não reaproveitável e com o investimento que se faz nesta energia”, disse Flávio Ferrari, head do Copenhagen Institute for Futures Studies (CIFS), no Brasil, durante a transmissão online “Futuro Acelerado: tendências, possíveis transformações e soluções ideais para o mercado”, produzido pela ENGIE. 

Segundo ele, esse é um dos tópicos mais importantes que deverá estar presente neste futuro acelerado, que terá uma economia fragilizada como cenário. 

Sustentabilidade do planeta x sustentabilidade do negócio

A questão da sustentabilidade gera uma grande preocupação com a preservação do planeta, mas, ao mesmo tempo, existe uma pressão pelo crescimento econômico. Como resolver este impasse? Esta foi mais uma questão colocada por Flávio Ferrari durante a transmissão online da ENGIE.

“Na verdade, essa tensão gerará uma força, que impulsionará a energia limpa, preservando o planeta e permitindo o crescimento econômico, ao mesmo tempo”, analisa Flávio, que também crê que a próxima onda de empregos impulsionará uma nova civilização de energia limpa”, responde Ferrari. 

“A gente percebeu que o planeta está se recuperando, está sendo menos agredido e isso vai gerar muita conversa. Mas existe a questão da sustentabilidade do negócio também. À medida que a automação substitui a mão-de-obra, ela também servirá de base para um renascimento digital vindouro, arremata o head, fazendo seu prognóstico para o mercado.

Pesquisas e estudos realizados, em 2019, pela Lappenranta University of Technology (LUT); Bloomberg News Energy Finance (BNEF), New Energy Outlook, corroboram a fala do head da Copenhagen Institute. Segundo dados desses órgãos, a estimativa é de que energia solar e armazenamento, por exemplo, gere 26,7 milhões de novos empregos até 2050; US$ 10 trilhões em investimento e mais de 12 Terawatts de potência.

Diante deste cenário futuro, Ferrari deixa um importante conselho para os líderes deste “século que se inicia”: 

“Esqueça a resiliência e invista em plasticidade. Não seja transformador da boca pra fora. Inspire mudança. Inspire-se no cenário futuro.” 

Seguindo esta visão, o diretor-presidente da ENGIE Soluções, Leonardo Serpa, complementa:

“Quando se pensa a curto prazo e só financeiramente a sustentabilidade não é a melhor solução, mas a médio e longo prazo é a melhor, e isso vai se acelerar. Essa é a nossa percepção, há algum tempo. Não é a toa que a sustentabilidade é uma bandeira da ENGIE e um dos nossos principais propósito, senão o principal, é ajudar nossos clientes a aumentar seu índice de sustentabilidade, inspirando-os e tornando economicamente viável este processo”.

>> Acompanhe mais conteúdos da série Futuro Acelerado, que aborda os novos rumos da sociedade, em decorrência da antecipação de grandes transformações que estamos vivendo. Acesse aqui e boa leitura!